domingo, 22 de novembro de 2015

ForMatada


"Coragem, às vezes, é desapego. É parar de se esticar em vão, para trazer a linha de volta. 
É aceitar doer inteiro até florir de novo."
Caio Fernando Abreu

       Ela já havia passado por tristezas profundas outras vezes, não era nenhuma novidade. Mas agora tinha algo diferente. Conformou-se em ser infeliz, por algo ou alguém. Aceitou como alguém que aceita uma missão, por achar que era o certo, o justo, o que deveria ser feito. Dia após dia, acordava e vivia para alguém até o momento de dormir e, gradativamente, deixava a sua própria vida ir se apagando. Cada vez raciocinava menos, apenas fazia o que tinha que fazer, como um robô programado pra fazer as pessoas felizes. Seu sistema era atualizado a cada “erro” cometido. Não podia isso, aquilo não era de acordo com as regras. Não, não dá tempo de passar o antivírus, precisava executar a tarefa diária. O programa não podia parar de rodar. Atualizando... Sobrecarga no sistema... Formatando disco... Executando... Executada. Quando deu-se conta estava sendo enterrada viva, junto com seus sonhos e lembranças boas. Lágrimas constantes acariciavam os lábios... o sorriso enferrujou e ninguém notou. Doeu alucinadamente ao pensar que não é quem ama que iria fazê-la feliz. Negou isso por muito tempo, até que não pôde mais ignorar o cinza do seu sorriso ao se olhar no espelho. Não se preocupe, você sempre vai poder usá-la em modo de segurança, mesmo alguns programas não funcionando. Algumas coisas são eternas dentro de nós, não importa o que aconteça fora.
     Ela, depois de muito tempo mergulhada em hipóteses, entendeu o problema. Não, nunca faltou amor, faltava – há muito tempo – sorrisos. Preferiu ter a pessoa que mais ama por perto do que a sua própria felicidade. Mas tudo tem um preço. Chegou ao limite, se desse mais um passo sabia que não voltaria mais. Era curto circuito na certa e, antes que isso acontecesse, o sistema de segurança desligou a máquina sem autorização do administrador. Coração, mente, sexo, alma, tudo colocado automaticamente para hibernar até que o sorriso volte a funcionar.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Sem sentido



     Fala. Fala que tudo isso vai passar – disse ela olhando para o céu. E a única resposta foi o som da noite. Ela não sabia o que fazia todos os finais de semana naquele chafariz, mas não conseguia deixar de ir até lá.  É aquele sentimento que você só sente que tem que ir, mesmo sem saber o motivo. Não sei se podemos chamar de destino, mas algumas coisas estão destinadas a acontecer, independente da nossa vontade. Cada pessoa que passa pela nossa vida tem uma função, acredite! E qual é a sua na minha? Ainda vou descobrir.... Quando? Não sei, mas tudo tem seu tempo e eu não tenho pressa. Afinal, “a pressa é inimiga da perfeição” e quero que seja perfeito, ou o mais próximo disso. Sei que o meu sorriso vai acontecer, como aconteceu algumas vezes. Sei que cada vez que olho pra lua você também está a observá-la. Aliás, ela está linda hoje, com um brilho especial como se quisesse me dizer algo sobre você. Acreditaria se eu te contasse que voltei no tempo só para te tocar? Sim, também teve um abraço com aroma de vinho. Às vezes te encontro nos sonhos, mas sei que não passam disso. Você sonha comigo? Você sonha? Tem planos? Ou só está existindo? Eu passei muitos dias apenas existindo e ainda passo vez ou outra. Queria que tudo tivesse sido diferente, mais feliz, menos confuso. Todos nós queremos e só queremos. Já imaginou se tivéssemos o controle remoto da nossa vida que bagunça seria? Eu pausaria naquela noite. Ainda escuta aquela música? Eu, nem música tenho escutado, o que é melhor, às vezes. Música tem um poder de revirar coisas em mim, cutucar feridas, apertar a saudade, abrir sorrisos e depois que acaba, como eu guardo tudo isso no lugar de novo? Já passou por isso? Desculpe, não estou falando coisa com coisa, não é? Minhas palavras estão tão bagunçadas quanto meu interior. Eu ando sem sentido, mas sentido muito. Não quero lhe incomodar, nem atrapalhar então... eu vou indo. Vou querendo ficar. Ah! Quando der, olha pra lua.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

(Lou)cura


     lou.cu.ra sf. 1 Estado de quem é louco. 2 Desarranjo mental que, sem a pessoa afetada estar ciente do seu estado, lhe modifica profundamente o comportamento e torna-a irresponsável; demência; psicose. 3 Insensatez. 4 Aventura insensata. 
      Sou aquela que perdeu a razão e só comete desatinos. Não é mais só esquecer o que foi fazer naquele cômodo nem o branco que dá quando vai falar o nome de alguém. Não é mais não lembrar o que fez ontem ou esquecer um compromisso importante mais de uma ou duas vezes. Não é mais assistir uma aula e não absorver nada dela, muito menos se perder no tempo e ter que sair correndo. Dormir o dia todo e se dar conta que não deu comida ao cachorro é a mais leve das falhas. Podia passar o resto do ano indo da minha cama para o banheiro e vice-versa.
     Eu falo da loucura camuflada, daquela que ninguém suspeita, ninguém vê, de ter um mundo só meu, onde eu penso coisas absurdas e tenho sensações e atitudes que não aprovo, mas faço. E depois me arrependo, me culpo, me odeio. Sentir? Isso foi ficando cada vez mais escasso. Hoje sou capaz de assistir um assassinato brutal sem expressar nenhuma reação. Te assustei? Eu também. Isso vem me assustando há muito tempo. Vem me prejudicando seriamente há muito tempo em todos os sentidos e área da vida. Venho perdendo não só a razão, como também a paz, paciência, sonhos, desejos, as pessoas, sentimentos – principalmente os bons. Perdoem-me os que já fiz chorar e os que ainda vou fazer até me consertar. Estou em um limbo onde não quero trazer ninguém. Eu estou fora de mim, estou no automático, existindo, assistindo eu mesma destruir a minha vida e as pessoas que ainda sentem algo bom por mim. Estou perdida, buscando desesperadamente a cura antes que eu machuque mais ou mais alguém. Não vou desistir, agora tenho esperança de sair do coma que me encontro, pois chutei o comodismo, procurei ajuda e finalmente encontrei. 
     E meu único desejo, ainda que racional, é que eu consiga me curar a tempo de não perder a única coisa – e a mais importante – que tenho: um amor verdadeiro.


"... Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca; 
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio... (...) 
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada mesmo que distante; 
Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade... (...) 
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço; 
E que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada; 
Porque metade de mim é o que penso, mas a outra metade é um vulcão... (...) 
E que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável; 
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei... (...) 
Que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba. 
E que ninguém a tente complicar 
porque é preciso simplicidade para faze-la florescer; 
E que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor
e a outra metade... também."

Oswaldo Montenegro


*Sim, repeti a citação!

sábado, 21 de março de 2015

Não me ame!


Porque metade de mim é a lembrança do que fui, 
A outra metade eu não sei...
Oswaldo Montenegro


    O amor é um dos sentimentos mais belos que existem, mas não quero que me ame. Ele é sutil, leve e salvador. Ele chega a transformar o pior monstro em um anjo. Ele te faz esquecer-se do tempo, das horas, de você mesmo. Ele faz brotar planos e sentimentos bons. Mas não, não me ame.  Você se entrega de corpo e alma, mesmo sabendo que é perigoso, mesmo sabendo que não é recíproco. Qualquer problema se torna um nada quando se tem amor. Ele te torna invencível! É teu consolo, teu colo, teu chão. Teu ouvido para as novidades e dores. Não me ame. Às vezes, parece que vai explodir de tanto amor que tem dentro da gente que, se explodisse, só iria espalhar sentimentos bons em quem fosse atingido. Você abre mão de muitas coisas por amor, mesmo não podendo, mesmo te prejudicando, o faz sorrindo. Ele te dá força, coragem e te transforma por dentro, tornando as qualidades maiores e até corrigindo alguns defeitos. Você se desdobra por apenas alguns minutos perto de alguém. Grita para o mundo o motivo do seu sorriso, sem o menor constrangimento. Reconhece aquela voz no meio de várias outras sem dificuldade. Não me ame, nunca. Pode passar horas olhando para aquele rosto sem se cansar, enumerando o que mais te fascina. Apaixona-se por toda aquela família como se fosse tua afinal, te deram o melhor presente que poderiam dar. Não se imagina sem e quer que fique na sua vida para sempre e.... do dia para noite tudo acaba. Sim, como se apertasse um botão, sua vida vira de cabeça para baixo, a dor é tanta que parece que vai morrer. Deus! Como doía, nunca senti tanta dor na minha vida. Tem que dar um jeito de sumir com tudo que está dentro para parar de te rasgar a cada vez que respira. Você perde o controle do que sente, perde seu trabalho, seus amigos, se isola. Perde-se, porque não importa em que direção vá, a dor continua latente, gritando, te matando a cada dia. Até o dia que a dor é tão grande e constante que anestesia seu corpo e alma. Olha no espelho e sente pena de si mesmo. Os amigos te encorajam a continuar a vida, a conhecer outras pessoas, mas nada te interessa. 
    Um dia está saindo com alguém por sair por sair, outro dia com outro e, quando percebe o primeiro sinal de apego se assusta e foge. Por isso eu repito: não me ame. Eu não tenho mais nada de bom que possa te dar. Não, eu não tenho medo de me apaixonar, porque sei que isso não vai acontecer. Sou vazia, tudo que eu tinha de bom vazou com as lágrimas infinitas. Me coração ficou em algum canto de um sobrado distante, talvez embaixo da cama onde chorei sangue tentando entender o que acontecia. Não me ame, por favor, porque isso me assusta e eu vou me afastar de você o máximo que puder. Arrisco dizer que odeio o amor. Ele sempre me trouxe dor, mas a última vez foi insuportável. Ele me tornou tão frágil que, ao me quebrar em milhões de pedaços, não consegui os colar novamente. Sou fragmentos de uma pessoa que um dia existiu e que sinto tanta falta como sinto da minha mãe. E que ao tentar andar sem as pernas acabou caindo ainda mais fundo, errado e sendo condenada no mesmo grau e, destruída de vez, aceitou a ausência de si. Não servia mais, era um ser humano com defeito. Não me ame, eu não vou poder te dar nada além de beijos e prazer. Não vai me ver todo dia, não vamos ao cinema, passear no parque, deitar na grama e ver as estrelas e a lua. Use-me e jogue fora. É pra isso que sirvo hoje, sou o kit-solidão temporário. Não fico mais com quem me ama pra evitar que mais alguém se perca nesse breu em que vivo. Pois não, não gosto e não desejo pra ninguém o que passei e me tornei, mas tive que aceitar. Fico com quem não dá nada por mim, com quem não tem intenção nenhuma de me levar a sério. E se, por acaso, eu perceber algum brilho diferente nos olhos de algum desses “quem’s” que passam por mim, será a última vez que irá me ver. Não quero amor, estou perdida. Não posso guiar ninguém e não enxergo o caminho para sair daqui. Quem poderia me ajudar me afunda ainda mais. Sinto-me doente. Tenho aversão a carinho, a “eu te amo”, “sinto sua falta”. O amor me sufoca. Não quero! Traz-me agonia, me tira a paz. Por favor, deixe-me só. Pode me julgar, mas não me ame! Não agora.

terça-feira, 17 de março de 2015

Parti, ainda partida


“Eu sabia que era preciso tempo. Cada perda tem sua hora de acabar,
cada morto seu prazo de partir, e não depende muito da vontade da gente.”
Lya Luft

     Afogava-se nas constantes lágrimas pelos erros, por sentir e, na maioria das vezes, por não sentir. Anestesiada, em meio a cobranças e tentativas falidas de fazer dar certo, errava mais. Em um ato de desespero foi até o porão, onde ninguém iria achá-la. Ainda sim ouvia as vozes das pessoas preocupadas e tristes pelo seu sumiço. No dia seguinte, quando tudo estava em silêncio, subiu até seu quarto, arrumou uma mala pequena e partiu. Não sabia ao certo para onde, mas sentia-se aliviada a cada passo que a levava longe dali. Deixava para trás seus sonhos profissionais, os quais, até então, não abria mão por nada nem ninguém. Deixava seus amigos, que já não eram mais só seus, o que amenizava a culpa da partida repentina. Deixava para trás sentimentos e desejos que não podiam ser vividos, só traziam dor e frustração para os envolvidos.
    Muitos tem pânico de armas, animais, altura, morte, ...  Ela entrava em pânico ao escutar “eu te amo”. É a mesma sensação daquele brinquedo de 100m de queda livre. Foi o que a fez partir. É um pânico inconsciente, que ela não dominava, na verdade, ele a domina. Enquanto ser amada é o sonho da maioria, pra ela era pesadelo. Quando ficava ao lado de alguém e se pegava sorrindo, era assustador. Quando se rompiam as barreiras físicas, tocando em sua mão, soava o alarme de emergência. Sua defesa a afastava o mais depressa possível. Era sumiço na certa.
     Sonhava sim em um dia conseguir viver ao lado de alguém, sem medo, sem dores e passado. Mas não falava disso com ninguém, nem consigo mesma. Pois isso a levava ao lugar onde isso aconteceu, com medos e dores sim, mas com uma intensidade jamais vivida. Onde viveu o maior e mais lindo sentimento e, consequentemente o mais dolorido e destruidor também. É estranho como alguém pode partir o seu coração e você ainda amá-lo com todos os pedaços partidos. Pra ela, felicidade virou a o alerta da dor. E por não conseguir se entregar a mais ninguém, acabava magoando também, o que a deixava pior, virando um ciclo vicioso. É o momento de seguir em frente, colocar no bolso os planos quebrados, as mágoas e culpas, o coração ainda partido, e estampar no rosto um falso sorriso de que tudo ficará bem.

Partir - v.i. Pôr-se no caminho, ir-se embora. |Ter seu começo. | Fig. Tomar por ponto de partida. | Emanar, provir.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Let It Go (Deixe ir)


"Todo mundo tem um monstro dentro do seu coração, existem duas maneiras de 
interagir com ele: A primeira é deixando ele te dominar; 
e a segunda é o dominando e o usando a seu favor."
Marcos Mazzochin


     Revirando redes sociais depois de tudo que eu vi e ouvi, me obriguei a seguir conselhos de terceiros – uns nem sei quem são. O fato de não sentir não anula a razão gritando comigo, me esbofeteando e me colocando de castigo. Eles têm razão, eu não te mereço. Bastou ver você entrar no carro sem olhar para trás para eu desabar. Não posso mais te ver assim, não do jeito que vi ontem e pensar que a culpa é minha, dessa doença maldita que me anula cada dia mais. Me sinto impotente. Perdoe minha fraqueza, meus erros e insanidades. Talvez eu seja mesmo esse monstro, e lugar de monstro é longe dos humanos. Você estará segura, assim como todos  ao nosso redor.

     Chegou o momento de a Elsa partir pra longe de tudo e todos para o bem dos mesmos. Não dá mais pra pensar que ainda posso fazer bem a alguém assim, não posso mais me enganar. Cada lágrima tua me destrói um pouco mais. Cada olhar de decepção, de tristeza me mata. Vou torcendo para que alguém melhor que eu te faça feliz. Eu vou em busca da cura, para que um dia eu possa falar sobre felicidade com conhecimento de causa.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

( ... )

“Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.”
C.F.A.

       As lágrimas caem de hora em hora. Vazias. Já nem sei mais definir por que choro. Já se passaram 3 dias e eu continuo aqui, deitada, tentando entender tudo isso. Quando acho que estou bem, me vejo no chão, sem forças pra levantar, pra pensar ou chegar à conclusão alguma. Uma ausência de tudo, inclusive de vida. Como se estivesse fora do corpo, assistindo eu destruir tudo sem poder fazer nada. A pressão aumenta a cada dia. O medo de repetir os erros me acompanha diariamente, o que não muda muita coisa. Só pesa mais a consciência, que também já está anestesiada. É fase? Que seja. Vem sempre acabar com cada sorriso, sem a menor piedade. E o pior disso tudo é que não tem volta. Por mais que tente consertar, nada será como antes  principalmente você mesmo. Impotência. Tudo indica que jogar tudo para o alto é a melhor solução. E o mundo continua girando, ele não para pra esperar ninguém. Quem pára fica pra trás, passam por cima, é esquecido. Enquanto você implora por um pouco de vida, de equilíbrio, os dias passam e não se vê. Esse é o momento mais perigoso, quando você pensa em desistir. Quando não faz diferença se está chovendo ou fazendo sol. Se vai perder alguns quilos ou a oportunidade de realizar seu sonho. Se vai se machucar ou destruir um coração  mesmo tendo passado por isso e saber o que significa. Se vão sentir sua falta ou não. Se você tem contas pra pagar, se tem compromissos a honrar. Quando tanto faz se tem alguém que depende de você pra se alimentar, ou apenas pra ter um dia melhor. Se você está prestes a perder a casa ou o grande amor. Se vai viver mais 30 anos ou morrer amanhã  ainda que prefira dar o último suspiro ainda hoje.